5° dia – Passamos de 200…

Hoje foi record…175 atendimentos médicos e quase 50 odontológicos. Confesso que o cansaço começou a bater, mas permanecemos firmes e fortes em nossa missão.

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Recebemos diariamente muita gente sofrida, triste e doente…isso nos cansa muito emocionalmente. É claro que o desgaste físico conta bastante, por exemplo, Marina, Fernanda e parte dos dentistas ficam de pé 100% do tempo. Nosso almoço dura cerca de 30 minutos e tivemos dias que nem pausa para o café foi possível. A tradução do árabe também cansa bastante a mente.

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Na parte da manhã  veio um rapaz que, primeiramente, passou com a Marieli e se queixou de algumas dores no corpo mas estava com vergonha de mostrar o local para uma mulher. Então, encaminhamos o caso para o Roque que observou alguns hematomas na coxa do paciente. Ele nos relatou que recentemente havia sido capturado por um grupo de extremistas e havia sido espancado.

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Mais tarde apareceu uma jovem grávida apresentando um quadro de grave infecção. Encaminhamos o caso para o hospital da ONU que recusou o atendimento por falta capacidade. Então,  decidimos pagar sua internação em um hospital libanês para a realização de exames mais detalhados. Para nossa surpresa, ela arrancou o acesso das medicações e fugiu, abandonando o leito do hospital…não sabemos o motivo  mas, provavelmente, achou  que pagaria por tudo aquilo e não  entendeu o que estávamos fazendo. Pena…ficamos preocupados com ela.

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Bom, ainda falta falar de mais 2 médicos. Começo com a Dra Stephany, caçula do grupo, residente de clínica médica que decidiu encarar essa missão conosco. Quando não está com sono (desculpe a piada interna!), nos ajuda com as mulheres que necessitam de consultas mais íntimas…preparamos um consultório  todo reservado, com cortina de banheiro e tudo, para que os pacientes fiquem mais a vontade.

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Dra Lorraine, carioca com outras  missões  no currículo, veio reforçar nosso time na área  da cardiologia. “Baixinha mas decidida” como  diz a nossa farmacêutica aqui em Zahle, ela nos ajudou muito na padronização dos medicamentos e também  nos direcionamentos de pacientes com problema de pressão alta e alguns casos de infarte recente.

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Depois desta semana intensa de trabalho, teremos o final de semana de descanso e voltaremos renovados na segunda, onde faremos o atendimento no centro comunitário ao lado do campo de refugiados…um pouco mais desafiador.

4° dia – Almost Professional

Somos praticamente especialistas em atendimento…tudo corre perfeitamente bem. Acostumamos com o ritmo dos procedimentos, logística de medicamentos e compra de materiais, além de uma comunicação mais fluida entre todos os envolvidos na missão.

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Hoje veio até nós um senhor muito bem apresentado e muito triste. Ele nos solicitou um medicamento para uma doença muito rara, chamada doença de Crohn. Consultamos o valor e liberamos a prescrição…tratava-se de um remédio caro. Pedi ao Leo, médico que o atendia, para orarmos juntos por ele e, após a oração, ele não conseguiu conter as lágrimas…é claro que nós também. Importante notar na foto que ele possui uma marca no meio da testa. Estas são as marcas de um muçulmano fervoroso que ora por muito tempo com a testa no chão.

 

Chegou a hora de contar um pouco da rotina dos médicos. Claro que além de atenderem todos os pacientes, cada um tem sua peculiaridade.

Não poderia deixar de começar pelo Dr Roque, ortopedista e capitão médico da Polícia Militar de São Paulo, que sempre com muito bom humor, interage com os pacientes tornando a consulta leve e divertida! Defensor do paracetamol, entre um paciente e outro grita LIBADOOOO, que significa PRÓXIMO, em arábe. Perambula entre os consultórios médicos e odontológicos enquanto espera o paciente, demostrando toda a sua hiperatividade.

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Dra Daniela, pediatra de mão cheia, recebe a maior parte das crianças no ambiente que preparou, assim que chegamos, com bexigas diferentes, palitos com sabor, sua mala de roupas de doação, tudo para deixar o ambiente mais descontraído para as crianças que, de tão assustadas que chegam, muitas vezes nem notam…e choram a cada exame. Ela, junto ao marido, Roque, formam o casal “Robert”!!!! Ambos não podem ver minha aproximação para uma foto que já fazem pose!

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Dr Leo ou Doctor Leonardo from Brazil, como se apresenta a cada novo paciente, cirurgião gástrico, chegou aqui louco para usar seu bisturi mas até agora não conseguiu. Virou clínico geral, atendendo tudo quanto é tipo de paciente, inclusive muitas crianças, chegando a ser backup da nossa pediatra na missão.

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Dra Marieli, ou para os mais íntimos Malé, geriatra, ajuda muito nas prescrições médicas graças ao seu amplo conhecimento farmacológico. Junto ao seu marido, Dr Leo, foram os primeiro a testar o trabalho no posto comunitário tentando atender sem tradutores e sem infraestrutura. Também recebe todos os tipos de paciente, sempre muita tranquila, atenciosa e sensata nas medicações a serem usadas.

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Finalizamos o dia com 150 atendimentos médicos e 48 odontológicos…total de 198 atendimentos no dia. Eu disse….almost professional!

3° dia – Entramos no ritmo

Hoje começamos bem! Triagem a todo vapor, separando senhas distintas para tratamentos médicos e odontológicos. Assim, a “fila” dos médicos fluiu melhor, já que os tratamentos odontológicos geralmente demoram mais.

Fernanda e Yasser parecem que trabalham juntos há anos, mas que nada, isso é por conta da necessidade, que os obriga a terem sinergia, mesmo com idioma, métodos e cultura diferente.

 

Em meio a tantas pessoas, recebemos a Srª Fatema Hamzoro, mãe do nosso amigo Yasser, que atua na triagem. Ela precisava passar em alguns médicos e, pessoalmente, encaminhei-a aos doutores. Uma mulher guerreira e super simpática que, mesmo viúva e com 67 anos, teve que fugir com os filhos no meio de guerra. Nada mais justo do que ser bem tratada por nós….me disse que eu era parecido com seu filho e me abraçou inúmeras vezes dizendo em árabe: “Ele é meu filho!”.

 

Falando um pouco sobre o time, relato agora o trabalho dos dentistas, equipe muito esperada e procurada por aqui, já que montar um consultório odontológico não é um tarefa nada fácil…eu vi e participei dos preparativos no domingo quando chegamos.

Jorge, 74 anos, nosso dentista mais experiente da missão, um exemplo para qualquer dentista jovem, parecia um trator, cada um que sentava na sua maca nem precisava de tradutor…ele já logo iniciava os procedimentos e mandava ver na mímica…era um atrás do outro….sem descanso para o nosso Guerreiro Oriental….rs.

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Hellen, sem equipamentos, se virava no improviso, já falando árabe e ajudando os outros dentista com o inglês, focando nas cirurgias e extrações dos pequenos e grandes, procurava manter o ambiente estéril e livre de qualquer contaminação…o que era muito difícil dado o local aberto e muito trânsito de pessoas.

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Joelma, por sua vez, concentrava o foco nos pequeninos, fazendo jus ao seu tamanho e também ao tamanho da única cadeira que tinhamos…uma cadeira especial para esse tipo de tratamento, mas muito pequena para um adulto. Era um capricho só…a molecada saía feliz com o dente limpo, restaurado e pronto para outra.

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Durante o tempo de cadeira vimos algumas lágrimas….mas na saída vimos muitos sorrisos agradecidos!!!!

 

Da parte dos dentistas, o relato interessante foi de que muita gente não quis extrair seus dentes, mesmo em condições precárias. Hellen diz que entende que a extração é uma mutilação e quem nem sempre é fácil tomar esta decisão, mesmo…triste. Outra constatação é que as crianças aqui, as mais pobres, principalmente, não sabem que existe “a fada do dente”. Para quem vive essa realidade no consultório, extrações de dentes de leite sempre vêem com festa e uma caixinha para que a criança leve os dentinhos para casa. Aqui, eles não querem nem ver os dentes extraídos…ainda que estejam bons e tenham sido removidos apenas porque os permanentes já estão na boca por cima deles. Vejam algumas bocas que encontramos por lá…

 

Hoje fechamos o dia com quase 150 atendimentos. Bora ver o que temos para amanhã!

2° dia – Tudo começa a melhorar

Agora somos experientes em triagem, prescrição dos remédios locais e na velocidade de tradução do inglês para árabe e, para algumas pessoas da nossa equipe, do português para o inglês e do inglês para o árabe…isso é enrolado no começo, mas depois você acostuma. Já estamos até falando algumas palavras em árabe como: obrigado, próximo, abre a boca, senta e onde dói.

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Com toda essa “experiência” ficamos mais calmos e adaptados à rotina dos atendimentos e também com o fuso de 6 horas. Assim, não foi difícil perceber e se envolver com a tristeza demonstrada no olhar e nas atitudes das pessoas. Crianças traumatizadas e assustada que demoram a expressar um sorriso, mas enquanto eu não tinha um, mesmo que tímido, não me satisfazia…clicava e mostrava a foto de imediato no visor da maquina…pronto, lá vinha aquele sorriso que me rendeu algumas fotos maravilhosas

Creio que vale contar um pouco sobre o que cada um está fazendo…hoje vou começar com o time da triagem, ponto fundamental para o fluxo das pessoas e direcionamento dos casos especiais…amanhã falo dos demais.

Bom, tudo começa na triagem, se ela não funcionar o caos está instalado. Com a ajuda do Yasser (refugiado sírio) e da Fernanda, craque em administração hospitalar, separamos os pacientes e direcionamos às especialidades que temos: Cardiologia, Ortopedia, Pediatria, Geriatria, Gastrologia, Clinica Geral e Odontologia.

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É uma situação bem complicada, pois lá os pacientes têm que explicar, em árabe, o que estão sentindo e do que precisam….geralmente isso é feito debaixo de muito tumulto e todos querendo falar ao mesmo tempo. Lembro que estamos falando de uma família grande, geralmente sem o pai, que provavelmente morreu na guerra, e com muitas complicações de saúde. Um caos para Fernanda administrar…mas ela adora!

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Lá os pacientes recebem as fichas e são direcionados aos médicos e dentistas, quando não para ambos, causando um “entra e sai” de refugiados na área de atendimento. Esse controle é feito pela Marina, que quase enlouquece com os sírios tentando explicar o que querem em árabe, certos de que ela pode entendê-los. E para falar os nomes…Marina, sem sotaque árabe eles não entendem! Muitas vezes ela precisa pedir ajuda aos universitários.

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Interessante e triste notar que muitos deles são pessoas formadas e com cultura, mas que perderam tudo e vieram correndo para cá. Agora, estão sem emprego, sem casa e com as famílias despedaçadas. Hoje mesmo recebemos irmãs com a avó, cujos pais morreram na guerra civil da Síria.

Fechamos o dia com aproximadamente 160 atendimentos…melhor que ontem, mas não estamos com foco na quantidade e sim na qualidade dos nossos atendimentos.

1° dia – Plano A,B,C…Z em ação

Apesar de tudo planejado com certa antecedência e algumas reuniões de alinhamentos prévio, a realidade nos surpreendeu em Zahlé. Isso nos fez sair do plano A para o B e improvisarmos planos até Z.

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Foi o dia de “tirar nosso verniz”, como diziam no exército, foi o choque com a realidade. Tínhamos que fazer triagem de pacientes que só falavam árabe, na sua maioria tímidos e com uma família numerosa. O problema era que cada membro da família necessitava de um cuidado especifico: dor de dente, pediatria, ortopedia, cardiologia, etc…foi então que percebemos a necessidade de mudança na forma como estávamos encaminhando  as pessoas aos respectivos atendimentos.

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Os médicos receitavam medicamentos em inglês mas sem, de fato, conhecer as opções disponíveis aqui no Líbano, além disso, dentistas necessitavam de inúmeros materiais para os procedimentos iniciais. Resultado, nossa conta na farmácia foi altíssima logo no 1° dia de missão. Eu, como financeiro da viagem, entrei em pânico e implantamos rapidamente um plano de eficiência total para os demais dias. Com isso, padronizamos as medicações e as categorizamos por grupos de doenças, conseguimos usar as sobras dos americanos e compartilhar as caixas de remédios com mais de um paciente, ou seja, somente o necessário para o tratamento.

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Foi no primeiro dia também que percebemos que “ser um refugiado”, independe de classe social, religião ou cultura. Atendemos muitas pessoas pobres e outras com alto grau de escolaridade, tais como engenheiros, administradores e até um médico refugiado, impedido de voltar ao seu país, apareceu para nos ajudar.

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Com tudo isso, estávamos esgotados no final do dia, mas felizes com o que Deus havia preparado. Atendemos cerca de 120 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

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Chegamos…ufa!

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Depois de um dia e duas noite viajando chegamos ao Líbano. Afinal voamos contra o fuso, e foi muito estranho isso. Veja só, entramos no avião na madrugada de sexta para sábado e, quando começou o serviço de bordo, perguntei a aeromoça quais seriam as opções para o jantar…ela me responde: é café da manhã senhor! Escureceu novamente e foi muito rápido, nos obrigando a pular o almoço e seguir direto para o jantar. Foi aí que o nosso relógio biológico começou a entrar em pânico…era café na hora do jantar e jantar na hora do almoço.

Bom, pousamos em Istambul e ficamos por lá cerca de 3 horas no aeroporto, tentávamos entender se era hora de tomar café ou jantar, ou talvez até almoçar!

 

Chegamos a Beirute no Domingo de manhã, isso mesmo passamos o sábado inteiro dentro do avião, e lá tinha uma van nos esperando para seguirmos de carro por mais 52 Km até a cidade de Zahlé. Aqui começou o desespero, pois tínhamos que colocar todas as malas mais as pessoas em uma van não muito grande…que bom! Tudo funcionou e lá fomos nós para mais uma etapa da nossa da nossa jornada.

 

Meus Deus, o que era aquilo….contramão vale? Como essa van corre tanto com todo este peso? Esse carro não vai tombar nessas curvas com essa quantidade de mala em cima? Cadê os radares? Nunca achei que eles seriam tão necessários e até deu saudades dos radares de 50 Km da marginal. Para resumir, a viagem que duraria um pouco mais de 1 hora, foi feita em apenas 40 minutos…isso mesmo, batemos o recorde numa pista cheia de curvas…verdade, teve gente que tomou dramim antes da viagem de carro, pois fomos alertados a respeito.

 

Enfim, chegamos rápido e vivos…Graças a Deus, que nos trouxe em segurança. Depois deixamos tudo nos quartos, descansamos um pouco da viagem e começamos a arrumar tudo para o inicio dos atendimentos na manhã seguinte.

Vamos ver o que Deus irá fazer nesse período em que estaremos na Sua total dependência e graça!

O Embarque

Em meio a tanta ansiedade, dúvidas e incertezas lá estávamos nós, despidos de qualquer capacidade e grandes conhecimentos. A única certeza que temos é que Deus está conosco nesta missão.

Enquanto a maioria brincava para disfarçar a tensão, outros se concentravam e refletiam sobre tudo o que deixaríamos para trás…filhos, casa, marido, esposa, namorado, compromissos profissionais, conforto, dentre tudo que tivemos que abrir mão para, com muito amor, dedicarmos nosso tempo ao outro. Quem é este outro e como seremos recebidos? Não sabemos, apenas conhecemos de ouvir falar e lermos a respeito.

Escrevo este trecho de dentro do avião enquanto a Hellen e os demais dormem como crianças. Sabe como é…viagem com médico, todos medicados com Dramin hehehe. Faremos agora 14 horas de voo até Istambul e, de lá, partiremos rumo a Beirute.

Nem todos estão aqui conosco, Fernanda, Lorraine e Joelma partiram antes em voos e horários distintos, mas o importante é que amanhã estaremos todos juntos em Zahlé.