Dia da Saúde no Brasil

Opa, quem falou que não dá para servir aos refugiados aqui no Brasil?

Com apoio da Comunidade Batista em Moema, Associação Compassiva, inúmeros voluntários e algumas doações, prestaremos atendimento médico e odontólogico aos refugiados árabes em São Paulo. Hoje, eles são atendidos pela Compassiva, uma organização social que ajuda crianças, adolescentes e refugiados em situação de vulnerabilidade na cidade.

A ONG oferece diversos cursos e atividades socioeducativas, envolvendo esportes, artes e cultura, além de auxiliá-los em sua adaptação e inserção em nossa sociedade, como ensina-los a falar português e inseri-los no mercado de trabalho brasileiro.

Cladine-Jornalista-refugiada-congolesa-770x400CaptureFoto: Compassiva

O atendimento ocorrerá no próximo dia 14/04 na sede da Compassiva que fica localizada no centro da cidade. Estimamos realizar cerca de 200 atendimentos médicos e odontológicos para adultos e crianças.

Acredito que, mais uma vez, teremos a oportunidade de manifestar o amor ao PRÓXIMO. Cristo, através da parábola do bom samaritano, nos ensina que o próximo é quem se aproxima do outro para lhe dar uma resposta às suas necessidades, sem levar em conta barreiras de raça, religião, nação ou classe social. O próximo é aquele quem eu encontro no meu caminho e aquele que ajudo sem esperar receber nada em troca…

Existem Refugiados no Brasil?

Muitos devem se perguntar: Existem Refugiados no Brasil?

A resposta é SIM e muitos…basta acessar o site da ACNUR Brasil (Agência da ONU para Refugiados) que você terá acesso as informações. Lá você também vai entender um pouco mais sobre o trabalho de proteção e apoio aos refugiados no Brasil.

Segundo dados divulgados pelo CONARE no relatório “Refúgio em Números”, o Brasil reconheceu, até o final de 2016, um total de 9.552 refugiados de 82 nacionalidades, sendo a maioria Sírios (3.772), seguindos por refugiados do Congo, Paquistão, Palestina e Angola.

Posso provar que isso é verdade andando pela ruas de São Paulo. Recentemente, fui ao Detran próximo a estação Armenia do metrô e me deparei com um Sírio muito simpático e carismático que trabalhava na região como ambulante. Infelizmente, depois de muito conversarmos sobre a Síria e a Missão Zahlé, não consegui  lembrar de seu nome…mas com certeza deve ser Mahmoud, Said ou Mouhamed.

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De onde vem os refugiados?

Exitem 22,5 milhões de refugiados pelo mundo e 5,5 milhões deles são sírios que foram forçados a fugir do seu país. Eles constituem o maior grupo de refugiados do mundo, seguidos de refugiadados do Afeganistão e Sudão do Sul . O país que mais abriga refugiados é a Turquia, cerca de 3 milhões até o final de 2016.

Você sabia que 28.300 pessoas são diariamente forçardas a deixar sua casa devido a conflitos ou perserguições. Pois é….esse dado é real!

14519942174_0ce4cc6e03_bFoto: UNRWA/Rami Al Sayyed

 

Fonte: http://www.acnur.org/portugues/

 

Mãe…estamos na Globo!

Matéria veiculada no telejornal GloboNews Em Pauta em 05 jun 2017.

Um grupo de seis médicos e três dentistas brasileiros viajou para a cidade de Zahle, no Líbano, para cuidar de refugiados sírios. Os profissionais foram por conta própria, com a colaboração de amigos, e fizeram 1.200 atendimentos em seis dias.

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http://g1.globo.com/globo-news/globo-news-em-pauta/videos/v/medicos-e-dentistas-brasileiros-viajam-ao-libano-para-cuidar-voluntariamente-de-refugiados/5919343/

Fica aqui o nosso “muito obrigado” a Thais Herédia e toda equipe do Em Pauta pela divulgação do nosso trabalho.

Capitão Roque…a voz da motivação

Compartilho mais um testemunho da missão com vocês. Desta vez, do meu grande parceiro Roque, ou melhor, Capitão Médico da PM Roque…sempre bem humorado, agitado e disponível, foi fundamental na motivação e suporte da nossa equipe durante toda a missão.

É com você Roque:

“Pessoas muito pobres, sem nenhum tipo de assistência de governo, abandonadas em campos de refugiados onde famílias vivem em tendas de 2×2 cobertas por lona plástica.

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Nos atendimentos, o que mais se encontra é uma condição precária de higiene e cuidados pessoais, onde os dentes em geral são cariados e podres, isso provavelmente porque não lhes foram apresentados ainda a necessidade básica da escovação dentária.

Alguns nunca escovaram os dentes, resultado disso um verdadeiro prejuízo de aspecto funcional e psicológico a todos eles.

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A água que têm acesso não é potável e isso explica os surtos de desidratação e infecções intestinais, principalmente das crianças, o que gera uma perda de peso e um comprometimento crônico no desenvolvimento do seu crescimento.

Outro diagnóstico comum encontrado foram as pneumonias e quadros alérgicos crônicos.

Sem acesso a qualquer forma de mídia, internet, telefone, ou qualquer outro recurso de comunicação, no geral são pessoas oprimidas, que se submetem ao islamismo e, de uma certa forma, são conformados com sua situação de guerra e de desprezo social.

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Passaram a ser pessoas que não são mais bem vindas no seu país de origem , nem tampouco no país que agora se estabelecem.

Nos atendimentos médicos, nos deparamos com pessoas de características carentes, pobres, sem nenhum tipo de exigência social. Verdadeiros bichinhos acuados que aceitam qualquer tipo de ajuda sem hesitar.

 

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Os meninos geralmente a partir dos oito anos , são recrutados pra guerra e passam a sofrer uma lavagem cerebral do governo local da Síria, e se tornam guerreiros locais sem nenhum treinamento militar, e as meninas, que perdem seus pais ou responsáveis por motivo da guerra, são recrutadas por aliciadores que as exportam, na maioria delas, para Arábia Saudita para serem exploradas sexualmente, vendidas como escravas sexuais.

Esses jovens quase certamente nunca mais retornarão às suas famílias e morrem geralmente antes dos 20 anos.

De comportamento típico, as mulheres geralmente não nos olham nos olhos, sempre de cabeça baixa, e as crianças acima de 5 anos que sofreram as ações da guerra, são crianças muito ansiosas, traumatizadas, muitas até neurotizadas que mal conseguem permanecer na sala de atendimento aguardando o chamado médico ou odontológico.

Choram, agarram as pernas das mães, e não escutam nem quando chamam pelo seu nome.

 

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De forma geral atendemos 1200 pessoas de um universo de 2 milhões de refugiados sírios que hoje se encontram em solo libanês.

Acreditamos que essas pessoas as quais atendemos, de alguma maneira, foram impactadas pelo nosso carinho, atenção básica á saude a que foram apresentadas e, acima de tudo, pelo amor cristão como foram tratadas pela equipe.

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Tivemos o privilégio de aprender com elas, e voltamos ao nosso Brasil, muito reflexivos a respeito de como somos felizes no nosso país e como nada se compara aos efeitos de uma guerra.

Apesar de termos atendido uma pequena amostra daquela população, entendemos que a semente foi plantada, e que cada vez mais há a necessidade de nos doarmos mais e mais em prol de outros.

 

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E como forma de agradecimento, esses refugiados que nada tem a dar em troca , nos retribuem apenas com um sorriso triste, dizendo apenas um …..obrigado, Dr Roque , Deus te abençoe…

Que outras oportunidades venham e que Deus nos abençoe a ajudar cada vez mais irmãos, sejam eles refugiados de guerra que vivem distantes de nós, ou mesmo aqueles nossos irmãos menos favorecido que se encontram do nosso lado.”

VALEU ROQUE!!!

Testemunhal

Já estamos no Brasil há quase 2 semanas mas nossas mentes continuam em Zahlé…impressionante o impacto que isso teve em nossas vidas! Sonhamos com palavras em árabe, olhares das crianças, atendimentos, triagem de doentes e por aí vai…pode acreditar, quase todos nós ainda sonhamos com isso e sentimos falta da nossa rotina na missão.

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Bom, para não perder a “embocadura” do blog, a partir de agora vou postar alguns testemunhais e hoje começo com a minha esposa Hellen Quintela…claro que tenho que começar com ela…afinal, não poderia ser diferente!

Senhoras e senhores, com vocês, Dra Hellen:

“Essa missão começou em meu coração bem antes do embarque. Ao ouvir falar dela, minha primeira resposta foi: ‘Sim, claro!’. Depois, comecei a pensar. Guerra? Riscos? Bombas? Tenho filhos, como ir e me arriscar a não voltar? Não posso ir.

Fugia do Marcos Amado, que estava em busca de profissionais de saúde, mas minha cabeça não parava de pensar nisso. Muitas vezes, chorei porque o desejo era enorme, mas me parecia insano ir.

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Dias e dias se passaram e fomos ao Encontro de Carnaval da CBMoema. Lá, conversei com a Dani e o Roque Toledo, um casal de médicos de nossa comunidade. Ambos lutavam com as mesmas questões: ir envolvia riscos e dinheiro. Não apenas despesas com vôo e hospedagem, mas também não ganhar durante o período em que estaríamos lá, já que temos profissões autônomas.

Voltamos do encontro e, no dia seguinte, toca o telefone. Era o Roque: ‘Amiga, nós vamos. Se a gente esperar tudo estar 100% certo, ninguém nunca vai’. Chorei de novo porque achei que tudo estava resolvido, mas não.

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Chega o dia de dar a resposta final. Ligo para o Marcos Amado e peço que aguarde até a noite, quando estaria em casa reunida com um grupo de amigos. Passei o dia chorando e falando com todos que podia, pedindo que orassem por mim. Ouvi um dentista contar que havia sido convidado uma vez para uma viagem semelhante, mas não foi e ficou incomodado ao saber que pessoas choravam de dor de dente noites afora.

À noite, com nossa turma em casa, Cris tocou uma música cujo refrão diz: ‘Segura na mão de Deus e vai’. Chorei igual criança, certa de que Deus estava me respondendo tão claramente como eu havia pedido! Decidi ir. De forma inexplicável, o medo se acabou.

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Para minha surpresa, a necessidade de tradutores e de alguém que cuidasse da farmácia, além de ele poder cuidar do blog da viagem e captar imagens, fez o Luciano, meu marido, se dispor a ir também. Milagrosamente, sem ter ainda um ano no trabalho para poder solicitar férias, a chefe dele abre exceção e o libera.

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Começamos os preparativos, as reuniões e, conhecendo o grupo, tudo foi ficando cada vez melhor. Tudo transcorreu perfeitamente na ida. Eu, que me pelo de medo de avião, até dormi. Aprendi a ter medo de carro, isso sim. Se corremos algum risco, foi no trânsito do Líbano!

Na odontologia, tive o prazer de dividir o ofício com outros dois dentistas: a Joelma Woolley, que virou minha mana, e o Jorge Sazaki, nosso guerreiro de 74 anos, grande exemplo pra muitos jovens molengas. Nunca havíamos trabalhado juntos. O Jorge, eu sequer conhecia. Quando chegamos lá, o entrosamento foi total. Deus preparou tudo, até o fato de termos apenas dois equipamentos e três ‘cadeiras’ para três dentistas.

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Sem combinação prévia alguma, a Joelma ficou em um equipamento à minha direita; o Jorge, em outro, à minha esquerda; eu, no meio, sem equipamento algum. Melhor coisa não podia ter acontecido! Minha formação é voltada para cirurgia, então fiquei encarregada das extrações necessárias, que não demandam o ‘motorzinho’. A Joema atendeu as crianças e o Jorge, os adultos, ambos fazendo restaurações. Eu atendia adultos e crianças apenas extraindo dentes sem condições de restauração, destruídos, com abscessos, que geravam muita dor aos pacientes. Se encontrava algum dente para salvar, encaminhava a meus colegas.

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A posição também foi estratégica pois ambos não falavam inglês, então, ao mesmo tempo que eu operava, socorria-os traduzindo do português para o inglês, para que a tradutora transmitisse ao paciente em árabe e, tendo a resposta, me reportasse em inglês para que eu devolvesse em português para os colegas. Ufa!

 

Em meio a tudo isso, perguntam: ‘Vocês estão evangelizando essas pessoas?’. Pregamos com nossa própria vida demonstrando amor ao próximo. Um adolescente muçulmano olhou para mim, depois de perder alguns dentes pelas minhas mãos, e disse: ‘Love you, doctora!’. Missão cumprida!

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Agradeço a Deus pelo privilégio de participar.

Obrigada, filhos, porque, apesar de expressarem o medo de a gente não voltar, entenderam a necessidade da nossa ida sem choros nem pedidos pra que não fôssemos.

Aos meus pais, obrigado por nos substituírem durante este período de forma tão especial.

Amigos que levaram nossas filhos para passear, saibam que foi dessa forma que também participaram da missão.

Agradeço pelas orações e apoio de cada um.”

Queremos BIS…

Escrevo este post aqui do Brasil e já com muita saudades do Líbano. Na sexta de manhã, enquanto estava no trânsito retornando as minhas atividades no trabalho, senti falta da nossas manhãs tumultuadas, das brincadeiras entre os membros da equipe e dos olhares de agradecimento das pessoas que atendíamos diariamente.

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Agradeço a todos aqueles que acreditaram em nossa missão e nos apoiaram com orações, palavras de incentivo e também financeiramente. Sem vocês isso não seria possível!

Creio que saímos desta missão muito diferente de como chegamos…foi um período de grandes experiências e aprendizados. Tivemos o privilégio de participar daquilo do que Deus tem feito naquele lugar e tenho certeza de que muitas pessoas foram impactadas e abençoadas com nosso o trabalho. Sou grato também porque pudemos deixar lá a nossa marca, a marca do o amor de Cristo, independentemente de raça, cultura ou religião. O amor demonstrado através das nossas atitudes, gestos e palavras.

Como dito pelo Beloved “somente na eternidade saberemos a extensão do impacto do que foi realizado por nós nos últimos dias.”

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Concluímos nossa missão com cerca de 1.200 atendimento médicos e odontológicos. Nosso orçamento foi suficiente para cobrir todas as despesas com farmácia, materiais odontológicos, tradutores e eventuais despesas hospitalares.

Aproveito para agradecer a Mays, nossa farmacêutica de plantão. O trabalho dela e de seu marido foi fundamental na distribuição dos remédios aos refugiados.

 

O que fizemos ainda não é o suficiente, pois só no Líbano, um país pequeno que é metade de Sergipe, nosso menor estado, são 2 milhões de refugiados sírios, ou seja,  uma gigantesca avalanche que corresponde a cerca de 30% da população do país. Um país também marcado por guerras, entre elas com Israel e os próprios sírios…marcas evidentes ainda hoje nas paredes da cidade de Zahlé.

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Esperamos em Deus que a Guerra na Síria acabe e que essas pessoas possam retornar a seu país e reconstruir as vidas. Ficamos com vontade de repetir a dose, quem sabe em outros lugares por esse mundo afora que necessita tanto de ajuda.

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Por fim, agradecemos a Deus, razão de toda esta missão…que nos usou como instrumentos para levar o amor, abençoando toda nossa jornada em Zahlé. Porque dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas.

Beloved – admiração e respeito!

É claro que não posso deixar de comentar sobre o líder e idealizador desta missão. Sem ele nada disso seria possível. Marcos Amado, carinhosamente chamado de “Beloved”, foi fundamental na liderança física e espiritual do nosso grupo.

É claro que para ele é fácil, o cara já foi missionário em tudo quanto é canto desse mundo, fala árabe, inglês, espanhol e sabe tudo sobre a cultura do oriente médio. Nosso professor e guia turístico…nos dava aula cada vez que saíamos.

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Beloved, sempre muito calmo e sereno, administrou nossas ansiedades e inúmeras perguntas, antes e durante a missão. Mesmo em Zahlé seguiu no seu papel de líder maduro e experiente, intermediando todas a nossas necessidades junto aos lideres libaneses.

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Não escapou das mãos do nosso amigo Roque. Estava com dores na articulação do cotovelo porque havia rompido parcialmente o ligamento. Preparamos a medicação e lá estava ele…todo sorridente até o momento em que foi picado…foi tudo registrado!

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Bom, fica aqui o nosso agradecimento e reconhecimento. Muito obrigado! Estamos prontos para outra, quem sabe África ou novamente no oriente médio…

Último dia – Visita aos acampamentos

Tudo pronto para partir…malas feitas, contas acertadas e consultórios desmontados. Ainda faltava uma coisa…tinhamos que visitar as famílias e levar, pessoalmente, nosso amor e orações para os refugiados no Líbano.

E assim foi, nos dividimos em 4 grupos com nossos intérpretes e fomos visitar casas, tendas e campos de refugiados. Haja coração…

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Mais uma vez um choque de realidade….as casas são muito simples, geralmente com um tapete grande e quase sem móveis. Na maioria das vezes o colchão serve para dormir e para receber visitas. Sala, cozinha e dormitório ocupam o mesmo espaço. Água nem sempre é encanada, banheiro do lado de fora e energia elétrica muito limitada.

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Escutamos inúmeras histórias e oramos por aquelas pessoas. Uma das famílias que visitei, o pai estava muito doente e sem emprego há algum tempo. Na Síria, ele tinha uma vida tranquila e com algumas posses…possuía uma fazenda de gado que, durante a guerra, foi ocupada e destruída por rebeldes. Ele também me contou sobre o período traumático em que foi capturado e ficou 5 dias vendado, amarrado e apanhando. A parte mais triste dessa história, foi que seu irmão teve que morrer para que ele fosse libertado. Sem outra opção, há 5 anos atrás fugiu para o Líbano e hoje sofre com dores no corpo, problemas no sistema nervoso e, para piorar, sua filha faleceu recentemente e sua esposa está com depressão. Enfim, são muitas as dores deste homem mas sei que Deus pode confortar o seu coração e trazer a esperança de que dias melhores virão.

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6° dia – Alargando as tendas

Pela primeira vez pudemos ampliar nosso atendimento em dois centros comunitários, além do que já fazíamos na unidade em Zahlé. Foi realmente um dia muito especial para nosso time.

Na parte da manhã seguimos a rotina na mesma unidade, com a diferença de não termos mais a Fernanda na triagem que havia retornado ao Brasil. Marina fez a substituição à altura e eu fui para triagem nos consultórios. Lembro de receber este senhor muito simpático com os pés e as mãos todos rachados, além de muitas mulheres e crianças.

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Como teríamos atendimento médico externo parte da tarde, combinamos de distribuir somente 30 senhas para a equipe, ampliamos para 50 e, como o ritmo estava ótimo, finalizamos com 80 atendimentos médicos somente na parte da manhã.

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A tarde fomos para os centros comunitários localizados ao lado dos campos de refugiados. Lá funcionam uma escola infantil, lavanderia comunitária e oficinas de costura para atender a população necessitada. São cerca de 800 famílias nestes campos. Então pensei…uau! teremos muito trabalho por lá!

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Não foi diferente do que imaginávamos…muitas crianças doentes, idosos e pessoas que não conseguiriam ir até nós se não estivéssemos por lá. Foi interessante notar que os homens sentavam separado das mulheres enquanto aguardam o atendimento.

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Aproveitei os minutos que teríamos antes de começar os atendimentos e fui até as tendas para conhecer e fazer umas fotos. Tudo muito simples e em condições precárias. Algumas famílias possuíam até carro (que não é muito caro se compararmos ao Brasil) pois transporte publico naquela região é muito precário.

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Nesse meu desbravamento entre as tendas encontrei algumas crianças saindo para escola. Foi um momento de muitas risadas e bagunça…acho que agitei a molecada antes da aula…me chamavam de “teacher”, gritavam e posavam para as fotos.

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Sai junto com Marcos Amados para visitar a outra unidade…lá estavam Leo, Marieli e Yasser, atendendo sozinhos cerca de 80 pessoas no centro comunitário ao lado de outro acampamento de refugiados. Saíram de lá mais tarde, pois a fila estava grande.

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Ao retornamos ao primeiro acampamento nos deparamos com uma situação de “guerra”…pessoas implorando para serem atendidas não respeitando mais a ordem dos atendimentos. Eles sabiam que ficaríamos somente aquela tarde e precisavam garantir que seriam atendidos de qualquer maneira. Chorei ao ver as mulheres com seus bebês nas mãos sinalizando que estavam com febre…me imploravam para entrar na sala. Dani, nossa única pediatra, estava exausta e sobrecarregada tamanha a demanda naquele dia. Então, pedi ao Roque que nos ajudasse com os bebês. Ele prontamente me disse: “Manda!”. Curioso para nós e não para eles, apareceu um bebê com os olhos pintados…ela tinha apenas 11 dias de vida.

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Infelizmente tivemos que fechar os portões e essa tarefa foi difícil,  não tinhamos braço e nem tempo para continuar os atendimentos. As mães empurravam as crianças na grade para serem atendidas. Mesmo assim, não em que fomos embora as crianças vieram se despedir e correram atrás do nosso carro até sairmos do acampamento.

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Foi o dia em que mais atendemos. Foram 240 atendimentos médicos e 40 odontológicos. Para mim, foi o dia mais rico em ensinamentos e satisfação.

Descanso dos Guerreiros!

Depois de 5 dias intensos, nada mais justo que termos um final de semana para descansarmos. Aproveitamos para ir até Beirute, ou como eles dizem, Beiruuuuut e no domingo fomos até Baalbek, que fica há 40 km de Zahlé.

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Em Beirute conhecemos alguns pontos turísticos e visitamos algumas mesquitas. Notei que no mesmo local tinhamos mesquitas e igrejas cristãs lado a lado…uma maior que a outra, até parece uma disputa de imponência. Finalizamos o dia com a comemoração do meu aniversário no City Centre…com direito a bolo surpresa da equipe.

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Conhecer Baalbek foi emocionante e tenso ao mesmo tempo porque a cidade é controlada pelo Hezbollah. Visitamos as ruínas do templo de baal, deus dos cananeus e o que mais me chamou a atenção foi o local onde eram feitos os sacrifícios dos animais. Uma pedra muito alta para que todos os presentes pudessem ver o sacrifício e nas laterais 2 piscinas onde os animais eram lavados antes da oferta. Outro ponto interessante da visita foi o templo do deus Baco, deus do vinho, lá eram realizadas as festas e tudo quanto é tipo de orgia; ali deu-se a origem da palavra “bacanal” porque era a festa que acontecia no templo do deus Baco.

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Saindo das ruínas fomos até uma mesquita grande e com telhados dourados localizada ao lado do monumento “I love Baalbek”. Ela era controlada por um grupo extremista e o ambiente era bem opressor, com imagens de homens com fuzil, decoração bem pesada no interior, homens armados na porta da mesquita e vários aparatos defensivos no lado de fora, possivelmente para precaver-se de qualquer ameaça no local…um verdadeiro clima de guerra.

 

De volta a Zahlé, jantamos e fomos descansar para iniciarmos a próxima semana de trabalho.

 

5° dia – Passamos de 200…

Hoje foi record…175 atendimentos médicos e quase 50 odontológicos. Confesso que o cansaço começou a bater, mas permanecemos firmes e fortes em nossa missão.

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Recebemos diariamente muita gente sofrida, triste e doente…isso nos cansa muito emocionalmente. É claro que o desgaste físico conta bastante, por exemplo, Marina, Fernanda e parte dos dentistas ficam de pé 100% do tempo. Nosso almoço dura cerca de 30 minutos e tivemos dias que nem pausa para o café foi possível. A tradução do árabe também cansa bastante a mente.

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Na parte da manhã  veio um rapaz que, primeiramente, passou com a Marieli e se queixou de algumas dores no corpo mas estava com vergonha de mostrar o local para uma mulher. Então, encaminhamos o caso para o Roque que observou alguns hematomas na coxa do paciente. Ele nos relatou que recentemente havia sido capturado por um grupo de extremistas e havia sido espancado.

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Mais tarde apareceu uma jovem grávida apresentando um quadro de grave infecção. Encaminhamos o caso para o hospital da ONU que recusou o atendimento por falta capacidade. Então,  decidimos pagar sua internação em um hospital libanês para a realização de exames mais detalhados. Para nossa surpresa, ela arrancou o acesso das medicações e fugiu, abandonando o leito do hospital…não sabemos o motivo  mas, provavelmente, achou  que pagaria por tudo aquilo e não  entendeu o que estávamos fazendo. Pena…ficamos preocupados com ela.

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Bom, ainda falta falar de mais 2 médicos. Começo com a Dra Stephany, caçula do grupo, residente de clínica médica que decidiu encarar essa missão conosco. Quando não está com sono (desculpe a piada interna!), nos ajuda com as mulheres que necessitam de consultas mais íntimas…preparamos um consultório  todo reservado, com cortina de banheiro e tudo, para que os pacientes fiquem mais a vontade.

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Dra Lorraine, carioca com outras  missões  no currículo, veio reforçar nosso time na área  da cardiologia. “Baixinha mas decidida” como  diz a nossa farmacêutica aqui em Zahle, ela nos ajudou muito na padronização dos medicamentos e também  nos direcionamentos de pacientes com problema de pressão alta e alguns casos de infarte recente.

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Depois desta semana intensa de trabalho, teremos o final de semana de descanso e voltaremos renovados na segunda, onde faremos o atendimento no centro comunitário ao lado do campo de refugiados…um pouco mais desafiador.

4° dia – Almost Professional

Somos praticamente especialistas em atendimento…tudo corre perfeitamente bem. Acostumamos com o ritmo dos procedimentos, logística de medicamentos e compra de materiais, além de uma comunicação mais fluida entre todos os envolvidos na missão.

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Hoje veio até nós um senhor muito bem apresentado e muito triste. Ele nos solicitou um medicamento para uma doença muito rara, chamada doença de Crohn. Consultamos o valor e liberamos a prescrição…tratava-se de um remédio caro. Pedi ao Leo, médico que o atendia, para orarmos juntos por ele e, após a oração, ele não conseguiu conter as lágrimas…é claro que nós também. Importante notar na foto que ele possui uma marca no meio da testa. Estas são as marcas de um muçulmano fervoroso que ora por muito tempo com a testa no chão.

 

Chegou a hora de contar um pouco da rotina dos médicos. Claro que além de atenderem todos os pacientes, cada um tem sua peculiaridade.

Não poderia deixar de começar pelo Dr Roque, ortopedista e capitão médico da Polícia Militar de São Paulo, que sempre com muito bom humor, interage com os pacientes tornando a consulta leve e divertida! Defensor do paracetamol, entre um paciente e outro grita LIBADOOOO, que significa PRÓXIMO, em arábe. Perambula entre os consultórios médicos e odontológicos enquanto espera o paciente, demostrando toda a sua hiperatividade.

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Dra Daniela, pediatra de mão cheia, recebe a maior parte das crianças no ambiente que preparou, assim que chegamos, com bexigas diferentes, palitos com sabor, sua mala de roupas de doação, tudo para deixar o ambiente mais descontraído para as crianças que, de tão assustadas que chegam, muitas vezes nem notam…e choram a cada exame. Ela, junto ao marido, Roque, formam o casal “Robert”!!!! Ambos não podem ver minha aproximação para uma foto que já fazem pose!

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Dr Leo ou Doctor Leonardo from Brazil, como se apresenta a cada novo paciente, cirurgião gástrico, chegou aqui louco para usar seu bisturi mas até agora não conseguiu. Virou clínico geral, atendendo tudo quanto é tipo de paciente, inclusive muitas crianças, chegando a ser backup da nossa pediatra na missão.

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Dra Marieli, ou para os mais íntimos Malé, geriatra, ajuda muito nas prescrições médicas graças ao seu amplo conhecimento farmacológico. Junto ao seu marido, Dr Leo, foram os primeiro a testar o trabalho no posto comunitário tentando atender sem tradutores e sem infraestrutura. Também recebe todos os tipos de paciente, sempre muita tranquila, atenciosa e sensata nas medicações a serem usadas.

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Finalizamos o dia com 150 atendimentos médicos e 48 odontológicos…total de 198 atendimentos no dia. Eu disse….almost professional!

3° dia – Entramos no ritmo

Hoje começamos bem! Triagem a todo vapor, separando senhas distintas para tratamentos médicos e odontológicos. Assim, a “fila” dos médicos fluiu melhor, já que os tratamentos odontológicos geralmente demoram mais.

Fernanda e Yasser parecem que trabalham juntos há anos, mas que nada, isso é por conta da necessidade, que os obriga a terem sinergia, mesmo com idioma, métodos e cultura diferente.

 

Em meio a tantas pessoas, recebemos a Srª Fatema Hamzoro, mãe do nosso amigo Yasser, que atua na triagem. Ela precisava passar em alguns médicos e, pessoalmente, encaminhei-a aos doutores. Uma mulher guerreira e super simpática que, mesmo viúva e com 67 anos, teve que fugir com os filhos no meio de guerra. Nada mais justo do que ser bem tratada por nós….me disse que eu era parecido com seu filho e me abraçou inúmeras vezes dizendo em árabe: “Ele é meu filho!”.

 

Falando um pouco sobre o time, relato agora o trabalho dos dentistas, equipe muito esperada e procurada por aqui, já que montar um consultório odontológico não é um tarefa nada fácil…eu vi e participei dos preparativos no domingo quando chegamos.

Jorge, 74 anos, nosso dentista mais experiente da missão, um exemplo para qualquer dentista jovem, parecia um trator, cada um que sentava na sua maca nem precisava de tradutor…ele já logo iniciava os procedimentos e mandava ver na mímica…era um atrás do outro….sem descanso para o nosso Guerreiro Oriental….rs.

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Hellen, sem equipamentos, se virava no improviso, já falando árabe e ajudando os outros dentista com o inglês, focando nas cirurgias e extrações dos pequenos e grandes, procurava manter o ambiente estéril e livre de qualquer contaminação…o que era muito difícil dado o local aberto e muito trânsito de pessoas.

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Joelma, por sua vez, concentrava o foco nos pequeninos, fazendo jus ao seu tamanho e também ao tamanho da única cadeira que tinhamos…uma cadeira especial para esse tipo de tratamento, mas muito pequena para um adulto. Era um capricho só…a molecada saía feliz com o dente limpo, restaurado e pronto para outra.

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Durante o tempo de cadeira vimos algumas lágrimas….mas na saída vimos muitos sorrisos agradecidos!!!!

 

Da parte dos dentistas, o relato interessante foi de que muita gente não quis extrair seus dentes, mesmo em condições precárias. Hellen diz que entende que a extração é uma mutilação e quem nem sempre é fácil tomar esta decisão, mesmo…triste. Outra constatação é que as crianças aqui, as mais pobres, principalmente, não sabem que existe “a fada do dente”. Para quem vive essa realidade no consultório, extrações de dentes de leite sempre vêem com festa e uma caixinha para que a criança leve os dentinhos para casa. Aqui, eles não querem nem ver os dentes extraídos…ainda que estejam bons e tenham sido removidos apenas porque os permanentes já estão na boca por cima deles. Vejam algumas bocas que encontramos por lá…

 

Hoje fechamos o dia com quase 150 atendimentos. Bora ver o que temos para amanhã!

2° dia – Tudo começa a melhorar

Agora somos experientes em triagem, prescrição dos remédios locais e na velocidade de tradução do inglês para árabe e, para algumas pessoas da nossa equipe, do português para o inglês e do inglês para o árabe…isso é enrolado no começo, mas depois você acostuma. Já estamos até falando algumas palavras em árabe como: obrigado, próximo, abre a boca, senta e onde dói.

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Com toda essa “experiência” ficamos mais calmos e adaptados à rotina dos atendimentos e também com o fuso de 6 horas. Assim, não foi difícil perceber e se envolver com a tristeza demonstrada no olhar e nas atitudes das pessoas. Crianças traumatizadas e assustada que demoram a expressar um sorriso, mas enquanto eu não tinha um, mesmo que tímido, não me satisfazia…clicava e mostrava a foto de imediato no visor da maquina…pronto, lá vinha aquele sorriso que me rendeu algumas fotos maravilhosas

Creio que vale contar um pouco sobre o que cada um está fazendo…hoje vou começar com o time da triagem, ponto fundamental para o fluxo das pessoas e direcionamento dos casos especiais…amanhã falo dos demais.

Bom, tudo começa na triagem, se ela não funcionar o caos está instalado. Com a ajuda do Yasser (refugiado sírio) e da Fernanda, craque em administração hospitalar, separamos os pacientes e direcionamos às especialidades que temos: Cardiologia, Ortopedia, Pediatria, Geriatria, Gastrologia, Clinica Geral e Odontologia.

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É uma situação bem complicada, pois lá os pacientes têm que explicar, em árabe, o que estão sentindo e do que precisam….geralmente isso é feito debaixo de muito tumulto e todos querendo falar ao mesmo tempo. Lembro que estamos falando de uma família grande, geralmente sem o pai, que provavelmente morreu na guerra, e com muitas complicações de saúde. Um caos para Fernanda administrar…mas ela adora!

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Lá os pacientes recebem as fichas e são direcionados aos médicos e dentistas, quando não para ambos, causando um “entra e sai” de refugiados na área de atendimento. Esse controle é feito pela Marina, que quase enlouquece com os sírios tentando explicar o que querem em árabe, certos de que ela pode entendê-los. E para falar os nomes…Marina, sem sotaque árabe eles não entendem! Muitas vezes ela precisa pedir ajuda aos universitários.

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Interessante e triste notar que muitos deles são pessoas formadas e com cultura, mas que perderam tudo e vieram correndo para cá. Agora, estão sem emprego, sem casa e com as famílias despedaçadas. Hoje mesmo recebemos irmãs com a avó, cujos pais morreram na guerra civil da Síria.

Fechamos o dia com aproximadamente 160 atendimentos…melhor que ontem, mas não estamos com foco na quantidade e sim na qualidade dos nossos atendimentos.

1° dia – Plano A,B,C…Z em ação

Apesar de tudo planejado com certa antecedência e algumas reuniões de alinhamentos prévio, a realidade nos surpreendeu em Zahlé. Isso nos fez sair do plano A para o B e improvisarmos planos até Z.

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Foi o dia de “tirar nosso verniz”, como diziam no exército, foi o choque com a realidade. Tínhamos que fazer triagem de pacientes que só falavam árabe, na sua maioria tímidos e com uma família numerosa. O problema era que cada membro da família necessitava de um cuidado especifico: dor de dente, pediatria, ortopedia, cardiologia, etc…foi então que percebemos a necessidade de mudança na forma como estávamos encaminhando  as pessoas aos respectivos atendimentos.

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Os médicos receitavam medicamentos em inglês mas sem, de fato, conhecer as opções disponíveis aqui no Líbano, além disso, dentistas necessitavam de inúmeros materiais para os procedimentos iniciais. Resultado, nossa conta na farmácia foi altíssima logo no 1° dia de missão. Eu, como financeiro da viagem, entrei em pânico e implantamos rapidamente um plano de eficiência total para os demais dias. Com isso, padronizamos as medicações e as categorizamos por grupos de doenças, conseguimos usar as sobras dos americanos e compartilhar as caixas de remédios com mais de um paciente, ou seja, somente o necessário para o tratamento.

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Foi no primeiro dia também que percebemos que “ser um refugiado”, independe de classe social, religião ou cultura. Atendemos muitas pessoas pobres e outras com alto grau de escolaridade, tais como engenheiros, administradores e até um médico refugiado, impedido de voltar ao seu país, apareceu para nos ajudar.

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Com tudo isso, estávamos esgotados no final do dia, mas felizes com o que Deus havia preparado. Atendemos cerca de 120 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

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Chegamos…ufa!

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Depois de um dia e duas noite viajando chegamos ao Líbano. Afinal voamos contra o fuso, e foi muito estranho isso. Veja só, entramos no avião na madrugada de sexta para sábado e, quando começou o serviço de bordo, perguntei a aeromoça quais seriam as opções para o jantar…ela me responde: é café da manhã senhor! Escureceu novamente e foi muito rápido, nos obrigando a pular o almoço e seguir direto para o jantar. Foi aí que o nosso relógio biológico começou a entrar em pânico…era café na hora do jantar e jantar na hora do almoço.

Bom, pousamos em Istambul e ficamos por lá cerca de 3 horas no aeroporto, tentávamos entender se era hora de tomar café ou jantar, ou talvez até almoçar!

 

Chegamos a Beirute no Domingo de manhã, isso mesmo passamos o sábado inteiro dentro do avião, e lá tinha uma van nos esperando para seguirmos de carro por mais 52 Km até a cidade de Zahlé. Aqui começou o desespero, pois tínhamos que colocar todas as malas mais as pessoas em uma van não muito grande…que bom! Tudo funcionou e lá fomos nós para mais uma etapa da nossa da nossa jornada.

 

Meus Deus, o que era aquilo….contramão vale? Como essa van corre tanto com todo este peso? Esse carro não vai tombar nessas curvas com essa quantidade de mala em cima? Cadê os radares? Nunca achei que eles seriam tão necessários e até deu saudades dos radares de 50 Km da marginal. Para resumir, a viagem que duraria um pouco mais de 1 hora, foi feita em apenas 40 minutos…isso mesmo, batemos o recorde numa pista cheia de curvas…verdade, teve gente que tomou dramim antes da viagem de carro, pois fomos alertados a respeito.

 

Enfim, chegamos rápido e vivos…Graças a Deus, que nos trouxe em segurança. Depois deixamos tudo nos quartos, descansamos um pouco da viagem e começamos a arrumar tudo para o inicio dos atendimentos na manhã seguinte.

Vamos ver o que Deus irá fazer nesse período em que estaremos na Sua total dependência e graça!

O Embarque

Em meio a tanta ansiedade, dúvidas e incertezas lá estávamos nós, despidos de qualquer capacidade e grandes conhecimentos. A única certeza que temos é que Deus está conosco nesta missão.

Enquanto a maioria brincava para disfarçar a tensão, outros se concentravam e refletiam sobre tudo o que deixaríamos para trás…filhos, casa, marido, esposa, namorado, compromissos profissionais, conforto, dentre tudo que tivemos que abrir mão para, com muito amor, dedicarmos nosso tempo ao outro. Quem é este outro e como seremos recebidos? Não sabemos, apenas conhecemos de ouvir falar e lermos a respeito.

Escrevo este trecho de dentro do avião enquanto a Hellen e os demais dormem como crianças. Sabe como é…viagem com médico, todos medicados com Dramin hehehe. Faremos agora 14 horas de voo até Istambul e, de lá, partiremos rumo a Beirute.

Nem todos estão aqui conosco, Fernanda, Lorraine e Joelma partiram antes em voos e horários distintos, mas o importante é que amanhã estaremos todos juntos em Zahlé.

A Missão

Por que ir a Zahlé? Por que refugiados sírios?

Esta é pergunta que todos fazem no seu subconsciente, mas a maioria das pessoas não tem coragem de nos perguntar, afinal, existem tantas pessoas necessitadas aqui no Brasil. Pensam, mas não perguntam, apenas reagem com muita comoção porque viemos fazer o bem, e isso é o que importa.

Eu concordo com o fato de termos inúmeras pessoas necessitadas no Brasil mas Deus nos mandou para o Líbano. Estamos aqui para fazer a vontade dAquele que nos enviou, e assim como Jesus, demonstrando amor ao próximo, hospitalidade, boa vontade e respeito, independente de raça, crença e cultura. Viemos para ajudar, de alguma forma, aqueles que perderam tudo na vida, inclusive a esperança de que dias melhores virão. Aqui se vive um dia de cada vez, sem pensar no futuro.

Enquanto alguns permanecem na Síria e lutam no pais sem qualquer esperança, outros fogem da guerra que já matou quase 500 mil pessoas. A Síria tem falta de hospitais, médicos, medicações e condições sanitárias.

A cidade de Zahlé

Zahlé (em árabe: زحلة) é a 3ª maior cidade do Líbano e fica situada no Vale do Beca. A cidade é considerada uma das principais do vale e possui 120 mil habitantes, em sua maioria cristãos. É famosa pelo seu ar puro, seus hotéis, resorts e comida típica libanesa de alta qualidade. Para mim, que gosto de comidas típicas e diferentes, ficar em Zahlé será uma maravilha, pois a região é referência gastronômica no país.

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A cidade fica a 52 Km de Beirute, cerca de 1 hora de carro e mistura bem a cultura cristã com a cultura muçulmana. Muito normal ver uma mesquita próxima a uma igreja cristã.

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Um pouco mais de Zahlé

A região é maravilhosa e muito fértil conhecida também pelo cultivo de vinhedos e pela produção de excelentes vinhos. Mas isso não impediu que boa parte da sua população do vale partisse para Austrália, Américas e litoral do Líbano devido às guerras e às condições econômicas e políticas instáveis que o país enfrentou no passado.

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Vale do Beca

Vale do Beca, de Beca, do Becaa ou Beqaa (em árabe وادي البقاع) é um vale muito fértil no Líbano, situado cerca de 30 km de Beirute. O vale possui cerca de 120 Km de extensão e 16 km de largura, local que fica coberto de neve no inverno.

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No passado, os romanos denominavam o Vale do Beca de “Cesto de pão do Império”, e ainda hoje ele permanece sendo a mais importante região de agricultura do Líbano, com muitos xiitas libaneses. Uma grande parte dessa população provém da Síria, deslocando-se para Beqaa em busca de melhores condições de vida.

O vale possui alguns marcos importantes da nossa história como, por exemplo, as ruínas romanas antigas de Baalbek, uma cidade antiga nomeada para o deus Baal dos cananeus. Provavelmente conseguiremos visitá-la em nossa folga de sábado.

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